Crise de identidade

Vivemos numa sociedade aparentemente maravilhosa, onde aqueles que mais sorriem e ajudam os outros são, curiosamente, os que mais precisam de ajuda. Mas, claro, quem é que tem tempo para reparar nisso, não é? Afinal, estamos demasiado ocupados a exigir "homens à moda antiga", os tais “homens de verdade”, mas com uma pequena condição: nós, mulheres, podemos ter comportamentos modernos, claro. 

Queremos o cavaleiro de armadura brilhante, mas que lave a louça e chore num ombro amigo… só não pode ser o seu próprio ombro, porque, coitado, isso seria fragilidade, não? É curioso como a masculinidade se tornou num desafio olímpico. Ser homem é ser forte, impávido, inabalável. Sentimentos? Pff, que ridículo! Um verdadeiro homem não sente, suprime. Está triste? Resolve sozinho. Tem problemas? Finge que não existem. Afinal, não foi sempre assim? O importante é manter a pose, mesmo que por dentro o barco esteja a afundar.

 No fundo, o que todos esperamos de um homem é que ele carregue o mundo às costas com um sorriso no rosto e, se as costas cederem, que o faça em silêncio – ninguém tem paciência para dramas, especialmente os masculinos. Ah, a ironia de querer "homens à moda antiga" por conveniência! Vivemos numa época marcada por uma crise de identidade profunda. 

O conceito de ser humano tornou-se tão maleável que há pessoas a identificarem-se não apenas com outro género, mas até com animais e objetos: cães, gatos, ou mesmo brócolos. Não é raro ouvir falar de indivíduos que imitam comportamentos animais, como latir, ou afirmam pertencer a identidades completamente desconectadas da realidade biológica. 

Esta fluidez identitária gera uma crítica feroz à atual geração, sobretudo quando comparada com as gerações passadas, que deram a sua vida pela pátria, lutaram pela liberdade e pelo bem-estar coletivo, e mantinham um sentido claro de dever e responsabilidade. 

 Se olharmos para as mulheres de outrora, aquelas que ergueram a sociedade com os alicerces da família, que, mesmo na sombra, foram o pilar do lar, vemos um contraste gritante. As mulheres de hoje, em grande parte, parecem ter esquecido o que significa ser mulher, o valor da feminilidade e a importância do seu papel na sociedade. 

Não se trata de regressar a um modelo antiquado de subserviência, mas de reconhecer que há um poder, uma força inegável na figura feminina que vai além da tentativa de imitar ou competir com o homem. Antigamente, a mulher sabia o seu valor e compreendia que, embora diferente, o seu papel era tão vital quanto o do homem. Hoje, porém, os papéis estão a inverter-se. 

O homem moderno é frequentemente empurrado para uma posição de passividade, desprovido da sua virilidade natural, enquanto a mulher é encorajada a assumir uma postura dominante, independentemente de a mesma lhe ser intrínseca ou não. 

Ironicamente, numa sociedade que se diz feminista, parece haver uma negação constante da verdadeira essência da mulher. Fala-se de empoderamento, mas o verdadeiro empoderamento não está em forçar a mulher a ser aquilo que ela não é, ou em assumir o papel que outrora era do homem. A liberdade reside em abraçar a própria natureza. 

 Entretanto, o homem, outrora guerreiro e provedor, que carregava a responsabilidade de proteger e sustentar a família, parece estar a ceder o seu papel à mulher, afastando-se do seu lugar. 

Assistimos a uma feminização do homem e a uma masculinização da mulher, como se as identidades estivessem a ser forçadas a inverter-se. Esta inversão cria uma desconexão não só entre os géneros, mas também dentro de cada indivíduo, que se sente perdido, à procura de uma definição de si próprio.

Talvez seja o momento para as mulheres, de forma irónica e consciente, reassumirem o seu papel de mulher, redescobrindo a sua força e importância, enquanto os homens precisam de retomar o seu lugar de responsabilidade e firmeza. No final, é na complementaridade entre os dois géneros, e não na sua fusão confusa, que reside o verdadeiro equilíbrio da sociedade. 

É urgente que esta geração perceba que a liberdade não está em ser qualquer coisa ou tudo ao mesmo tempo, mas em ser, de forma íntegra, aquilo que cada um realmente é.

Comentários

Postagens mais visitadas