Autismo
Autismo
O que eu disse? Há! Claro, não me lembro. Às vezes lembro-me
do que digo o que já tem algum significado, é sinal que a medicação sempre faz
algum efeito. Ontem esqueci-me de quem amava ou que tinha alguém que me amava e
ia eu indo caminhar em direção aos ventos do penhasco por cima do estádio AXA.
Perto das rochas estava um unicórnio, não era um cavalo com um
chifre, era um homem que queria selar o seu destino porque a sua mulher ter-lhe
chifrado.
Conversámos cerca de Trinta minutos. Pobre Homem, estava
desamparado e não fazia ideia de quem era eu. No momento que só vi alguém
pronto para tirar a sua própria vida, depois vi algo nele que não via em mim.
Coitado. Saltou daquela altura.
Saiu na varanda a minha tia, irmão da minha mãe, num tom de
gozo e riso simultâneo e perguntou porque que eu estava a saltar de um degrau
para o outro, falando sozinho, achou ridículo. Um comportamento inadequado…
De repente já tinha um amigo imaginário de uma forma incrível,
a minha doença levava-me para outros lados da vida. Os lados que certamente,
todos nós iremos um dia. Mas tudo indicava que havia muito para acontecer até a
minha hora chegar. Talvez amanha.
Faço 23 anos este mês. De momentos parecia que tinha 13. Os
médicos nunca descobriram alguma alteração em mim talvez seja porque já não vou
ao médico a Sete anos. Acho que tenho um atraso mental. Mas não sei bem se é
isso, talvez seja só uma perturbação dado as circunstâncias que a vida me tem
pregado. O avô acamado. A Mãe sempre indisposta. Não ter dinheiro para comprar umas
pastilhas elásticas, a namorado nisto tudo tem um papel importante na minha
vida, ao menos quando estou com ela esqueço tudo e por momentos sinto-me nos
braços de alguém que me ama.
Não digas a ninguém mas ontem esqueci-me de quem eu amava,
talvez seja porque ninguém ama. Que cabeça a minha.
O meu amigo, o do penhasco do AXA, nota que não estava bem da
cabeça.
Mas ensinou-me uma importante lição.
Ele disse-me que tinha asas que era por isso que ia saltar
daqui. Claro que fiquei rindo baixinho por dentro.
Devagarinho ele tirou o cascoso tinha o casaco. Saltou.
Fiquei perplexo e com um sentimento de culpa porque poderia ter evitado…
De repente como se o tempo tivesse saltado também, vejo a
minha tia assustada a gritar o que eu tencionava fazer a filha... Tinha
três anos.
A minha tia só que explicou na hora do jantar que eu tinha
agarrado peça mão e uma perna e balançado para a piscina e gritava voa, voa. Eu
não me lembrava nada disto.
Confesso que vi a minha tia aterrorizada. Mal ditou palavras
naquela noite.
Com todos estes acontecimentos que não me lembrava, nesse dia
de outono fizeram-me uma visita. Lembro-me que eram 2, um branco, outro preto,
com fatos e óculos de sol como se fossem a um funeral, claro que eu pensei que
eram os Homens de Negro, e vinham capturar o extraterrestre, ou os seguranças
do Barack Obama.
Fiquei assustado. Tentei fugir, era a única solução, nem
acabei de ver as mentes criminosas o que me deixou muito aborrecido.
Apanharam-me. Injectaram-me com uma espécie de anestesia, os
meus pés deixaram de correr passaram a arrastar pelo chão áspero da sala.
Acordei 53 minutos depois do sucedido. Não me lembrava do que
tinha acontecido.
Não imaginam o que se passou a seguir. Vão ter que ler para
perceber.
Sentaram-se os tais capangas. E eu numa cadeira de ferro. Só
gritava, pensei eu que se tratava de uma cadeira eléctrica, comecei a gritar e
chorar inconsolavelmente, até que parei e continuei a ouvir o eco de um outro
choro, parecia ser do meu amigo do penhasco do AXA.
Ele gritava muito.
Tentei fugir, mas de nenhum jeito deu. Mas a cadeira não
gostava de mim, era óbvio, agarraram-me pelas pernas como se eu fosse um frango.
Entraram dois mais dois gorilas deviam ser seguranças,
pensei, caramba devo ser mesmo muito perigoso. No final de tudo, até me ri,
eles até tinham piada, só na cara que parecia que estiveram nas obras na ponte
25 de Abril.
Pensei que ia levar uma sova. Mas não. Disseram em tom
irónico que eu era especial, palermas, eu sei muito bem que não sou…
Continuaram a falar cerca de Trinta minutos, eu só ouvi o
primeiro minuto.
Até que disseram algo interessante, que me fez pensar…
disseram eles:
Nós sabemos que tens um amigo. E que falas com ele. Fiquei
descoberto. Não soube o que dizer. Lá param de fazer troça de mim. Mas
continuava eu sem saber como souberam do meu amigo…Passei Trinta e três meses
naquele buraco com grades e enfermeiras todas vestidas de branco.
Fartei-me de levar injecções e medicação, mas como é óbvio
não tomei quase nenhuma medicação, eu não sou doido, eu estava consciente de
tudo, eles é que não. Tomar aquelas medicações todas só atrasava o meu
pensamento, não permitia que eu tivesse um pensamento e um raciocínio claro.
Tínhamos oportunidade de convívio 1 vez por semana pois é,
tão pouco, diziam que era para não haver muita interacção porque a todo o tipo
de mentes aquele sítio e pode dar problemas uns com os outros. Treta.
Tinha que me comportar de forma racional para aceder as
partes mais sombrias do meu corpo, mas não podia fazer isso perto deles.
Decidi então ir dar uma volta pela instituição, a caminhar
que nem um zumbi para não chamar a atenção, seria um comportamento normal para
eles.
Passei pela secretaria do director daquela instituição. Tinha
uma câmara de filmar foi brincado pelo caminho, não tinha vídeos nenhuns. Pelo
caminho, passei pela porta do balneário feminino das enfermeiras, pensei ter
visto um unicórnio, continuei a andar mas depois voltei para trás com a câmara na mão.
Por azar do director, estava por trás da enfermeira
brasileira, ela estava todo de branco com os joelhos e mãos no chão. Fazia um
pouco de barulho, e ouvia-se algumas palavras, a câmara captou, vai veado,
monta, vai. Filmei até terminarem. Por momentos pensei que estavam a ter
relações sexuais. Mas afinal estavam a ensaiar para a peça de teatro que eventualmente
ouvia-se fala.
Bom, eu tinha que usar isto de alguma forma. Vi este vídeo a
noite toda tentar perceber do que se tratava a peça de teatro.
Estava um belo dia de sol, notava-se pelos raios de sol que
batia na janela de vidro no meu quarto.
Não é habitual mas esse dia acordei sorridente, e fui falar
com o director. Contei-lhe tudo. Disse-lhe que já sei sobre o que será a peça
de teatro que tanto de houve falar. Ingénuo.
Questionou o director. Com ar de quem não sabe o que falo.
Sabe, como sabe se ainda não foi revelado? Respondi
confiante.
Eu vi você a treinar com a enfermeira brasileira, filmei tudo
e fui treinar com Susana o meu amigo e uma amiga da Susana.
O director. Ficou de boa aberta, num tom autoritário e aflito.
Falou apressadamente.
Gravado? Onde esta esse Video? Mostra-me já! Notava-se que
algo se passava, não era normal o suor que corria no rosto dele.
Eu vi sorrateiramente, ele a desviar o dedo que escondia a
aliança já posto a muitos anos.
Lá dei-lhe a câmara. Sem o cartão, furioso perguntava ele
onde está o cartão. Ouvia-se os batimentos cardíacos dele.
Respondi-lhe calmamente.
Tenho-a eu.
Bem senhor directo. Tem Vinte e três horas para me tirar
daqui. Ou então faço com que o cartão seja visto. A sua mulher ama-o, eu noto
isto sempre que ele vem trazer-lhe a comida feita por ela a meio do dia para
evitar a sua deslocação, pensa ela que você está atarefado e está. Já para não
falar que a pobre e linda mulher a sua, para comerem todos juntos até lhe trás
as suas duas filhas. Meninas bonitas.
Agora diga-me senhor Fernando, que será desta felicidade que
tanto rodeia a sua família se eu não sair daqui ainda hoje?
Treze horas depois já eu tinha saído de lá. Alívio.
Fui para um paramento alugado, 80 euros Cinco noites. Mal
água quente tinha. Saí, fui apanhar ar, faz algum tempo que então podia fazer
aquilo, caminhando pela noite, pela minha surpresa, vejo a mulher que sempre
quis casar. Caminhava ela sobre a noite sombria foi um enorme sufoco para eu vê-la
e querer muito mais que dizer-lhe uma boa noite. Trocamos o contacto, tomamos
um café, contei-lhe tudo, meti-lhe que tive no estrangeiro. Então lembrei-me do
senhor Fernando.
O dia seguinte, escrevi-lhe uma carta com poucas, palavras.
Senhor Fernando, a pior coisa na vida é viver uma vida feliz
depois no final sabendo que foi tudo mentira. Sete meses depois tive uma
resposta que ele já não trabalhava lá mais. Nunca tive notícias dele. Decidi
ligar a Maria, mulher com quem em quero casar, veio ter comigo, contei-lhe tudo,
e a verdade, ficou calado dois minutos a olhar para o chão com lágrimas nos
olhos. Não falamos mais a partir desse dia.
Dias depois, fui visitar a minha tia, mal me reconheceu,
estava toda pedrada, com a quantidade de heroína que consumia por dia, a
segurança social já tinha-lhe tirado a custódia das filhas. Faleceu no mesmo
ano.
Deitei-me um pouco no meu antigo quarto, comecei a fechar os olhos
involuntariamente, comecei a suar, o meu corpo não parava quieto estava a ter
uma espécie viagem no tempo, lembro de algumas coisas que me passaram pela
cabeça naquele momento 1259$#$%#$000123459100%#$#”$$998872238342 32-23-53-33
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Talvez seja só um ataque de ansiedade. Acordei quatro minutos
depois, estava todo suado, e nem me tinha mexido, pus-me a pé, os meus pés não queriam
acentuar no chão. Segurei-me na porta, parecia que tinha corrido 31 mil quilómetros,
mal o sol bateu-me no rosco cai para o chão e veio-me a cabeça números outra
vez. 32-23-53-33-3-5. Não consegui perceber descobrir o que significaria estes números,
parei nas escadas a porta da casa e fui lendo o jornal, tinha uma notificação que
falava do Euro Milhões, Cinquenta Milhões de euros está semana.
O meu cérebro rapidamente associou tudo. Fui sem esperança,
porquê que alguém ia sonhar com números e ia ficar milionário. Marquei os
números.
Sexta-feira dia de chuva, tudo parecer correr mal, renda por
pagar, comida a falhar, roupa molhada e fria, la foi eu registar. Mandaram-me
ficar atento a televisão. Não liguei muito. Cheguei a casa, tentei tomar um
duche rápido, porque agua ficaria fria num instante. O gás do fogão já era
pouca. Liguei a televisão enquanto tentava petiscar algo para jantar. Nisto que
ouvi que o vencedor estava em Portugal, comecei a ficar mais atento.
Saí a rua na manha seguinte, parecia que tudo estava a ficar melhor,
registei e o senhor ficou parado Dois minutos a olhar para mim, provavelmente queria
roubar-me. Olhei fixamente. Soletradamente perguntou, sabe quanto ganhou?
E eu na minha inocência disse, cerca de Setenta euros, ele não
rapaz, acabo de ficar milionário. Eu não acreditei muito, para quem tinha na
conta bancaria 0,72 cêntimos.
Fui verificando a minha conta. Pela minha surpresa começo a receber
chamadas do banco a fazerem-me ofertas, e pessoas ditas importantes com grandes
empresas a ligar-me sócio. Achei estranho, fui verificar a minha conta. E fiquei
parado a olhar para os Cinquenta milhões e Setenta e dois cêntimos.
Deixei, não mexi na conta durante Três dias, pensei que fosse
engano, alguma máfia enganou-se e mandou o dinheiro para minha conta.
Cinco dias depois a fome começou a apertar. Fui ver a conta
de novo, comecei a movimentar, foi a grande. Comprei uma casa enorme. Com tudo,
que possam imaginar, fui buscar as filhas da minha tia. Passaram a morar
comigo.
Nunca consegui conquistar a mulher que amo, ouvi rumores que
ela está nos braços doutro homem que crueldade, agora que posso dar tudo que não
pôde separados. Mas continuo apaixonado por ela.
O dinheiro mudou-me muito, mas nunca deixei a minha humildade
cair no abismo.
Estava um dia chuvoso, sentei-me nas escadas, e observado o
que nada via.
Chamei o meu amigo, ele veio, e tivemos uma conversa de amigo
para amigo, ele sem dúvida é o único amigo que confio.


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